terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Enquanto o dia morre lá fora ele opta por entrar na escuridão da solidão que seus olhos refletem no espelho ainda embaçado. Aquele lugar obscuro dentro de si, onde todas suas fichas estão espalhadas pelo chão do apartamento cinza que outrora teve esperança erguida em paredes já não é tão nostálgico. Em meio à escuridão a cinza se evidencia como quem anuncia a que veio.

Já faz um tempo que ele não sabe o que é dormir em sua cama, a propósito, nem essa ele possui, contudo, isso não o impede de sonhar os desejos contidos em sua alma. Vez ou outra ele se pega vivenciando momentos complicados de olhos fechados e sente seu mais profundo sonho até perceber que o sol radiantemente o despertou com seus raios ultrapassando a janela da sala de estar. No sofá, ele permanece inerte até observar onde está e se dá conta de que se trata de um lugar familiar – mas nem tanto. Quando se permite esfregar os olhos e abrir a boca num bocejo preguiçoso é que se dá conta de que seus tímpanos já se sentem que o dia chegou. Algumas vezes, o abraço de um anjo o conforta e o faz acreditar que, mediante as circunstâncias, ainda existe algo de bom, a pureza de um anjo que não exige um "bom dia" nem explicações da noite anterior, apenas um abraço, um único e confortante abraço. E isso, talvez seja o suficiente.

Todos os dias ele pensa no que aconteceu e orgulha-se por ter sobrevivido tal catástrofe e ainda enfatiza que, caso tivesse em suas mãos o domínio dos acontecimentos, permitiria que tudo ocorresse do mesmo jeito. Cada lamentação, cada lágrima, cada bem perdido, cada esforço de esquecimento o faz sentir-se mais forte e confiante.

Ao longo de seus dias ele foi se auto subestimando e tentando ser melhor. Não por mim, nem por uma amiga, família, por ninguém. Na verdade, hoje ele é um hedonista e busca seu prazer. Dança como se ninguém estivesse olhando, canta, sorri, chora, abusa, ousa. Tudo se desencadeou dentro dele. Seus medos e conflitos continuam, porém, são frequentes em suas batalhas diárias. E, ele persiste em obstruí-las.

Diariamente ele sobe aquele vão de escadas, gira a chave que já criou cativeiro em seu bolso, e, com lágrima nos olhos ele vai até o quarto onde não há nada além de cinzas.

Enquanto o sol vai se despedindo do dia atrás dele, ele sorri e cria memórias.

Hoje, ele deixou de acreditar no amanhecer para acreditar em si mesmo.


 

Rubian Calixtodedicado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

aqui nasce um narrador.





O relógio marcava 15h quando me dei conta de que o dia estava acontecendo. Era um sábado e fagulhas em feixe de luz brincavam de fazer pilastras com um pouco de poeira que havia nos lençóis. Eu abri somente um olho e enxerguei as três latinhas de cerveja que havia tomado antes de dormir assistindo uma comédia romântica. “O que a gente não faz para se divertir?” pensei comigo mesmo e corri até a geladeira antes que encontrasse uma resposta. Havia uma jarra de suco de goiaba, uns 700mL, agora misturado com o que ainda estava no meu estômago. Hesitei em procurar algo para comer, me contentei com o suco. O ‘laptop’ ainda estava ligado e me dei conta que dormi antes que o filme terminasse, por hora pensei em terminá-lo, acabei desistindo e lembrando que teria um compromisso. Era uma festa cujo a temática era uma volta ao tempo, anos 80, mais precisamente. Alguém que nasceu no penúltimo ano da década possivelmente não lembrará o que ocorria naquele tempo - e, quer saber, nem me interessa – por hora somente como ir vestido à festa – afinal, quem fosse caracterizado ganhava uma tal bebida. O ‘google images’ existe para isso. Jamais iria sair de casa com uma bermuda logo abaixo do meu pênis, tipo... uns 11cm mais pra baixo, com minhas pernas de fora e um tênis de jogador de futsal. Optei por um jeans surrado e camiseta rasgada. Assim fiz, rasguei três camisetas, pois, não ia sozinho e sabia que os caras não iam fazer nada para irem caracterizados. Como quase sempre, adivinhei. Ouvia “os meus heróis morreram de overdose; meus inimigos estão no poder...” enquanto devorava uma torta de chocolate branco. Calcei meu ‘allstar’ e fui.
Meus amigos pareciam estar “morgados”, não estavam muito afim de um som exageradamente alto, pessoas descontraídas, excêntricas e muito barulho. Parecia que tinham vindo só para me agradar. Por isso consenti quando resolveram voltar pra casa mais cedo. A grana tava curta e a vontade de ter uma noite louca era excessivamente exorbitante. Encontrei pessoas. Comprei cigarro e tomei três doses no próprio ‘openbar’. Fazia tempo que não sentia essa sensação de liberdade. Não percebi algemas em minhas mãos, nem muito menos uma bola de ferro amarrada aos meus pés, não havia sequer alguém me vigiando – não dessa vez. Olhei em volta... muitas gatinhas, muitas mesmo, contanto, três delas andavam juntas. Denominei o trio como o “que trio,quero trio”. Estavam absurdamente lindas, bem vestidas, uma delas usava luvas, outra algo que remete a onça e a outra, botas. Minha nossa!!!
Eu já via tudo embaçado, já não reconhecia as pessoas e comecei a falar com estranhos. Lembro vagamente de um cara que se aproximou dizendo que eu era sexy. Até tentei lembrar-me do rosto dele depois, tarde demais. Uma morena de olhos claros e ‘jeans’ rasgado dançava na minha frente enquanto o DJ tocava uma música de desenho animado. Numa mão eu tinha um cigarro apagado, na outra, uma latinha de cerveja que ganhara há três minutos. Eu sequei a latinha e automaticamente fui procurar algo para acender meu cigarro. Quando dei por mim, “que trio, quero trio” estava na minha frente. O gelo seco e as luzes me fizeram demorar a captar que elas estavam bem na minha frente e dançando de forma descompassada. Estavam bêbadas? Veio-me a pergunta. Não me interessa, respondi a mim mesmo. Aproximei-me. Vi que uma delas portava um cigarro aceso, arrisquei, pedi emprestado, ela tomou o meu da minha mão e acendeu, em seguida, a mesma o colocou em minha boca, separando os meus lábios e tocando com os dedos na minha barba. Senti sua luva preta tocar o meu rosto. Sorriu-me. Retribui. Fiquei perto delas e de repente me vi num sanduíche humano. Logo em seguida, a de oncinha passou a mão em minha cintura e me puxou para perto dela. Eu estava de costas pra ela e pensei: “vou ser comido agora!” Que nada de fato, a faminta ali era ela. Suas mãos começaram a percorrer meu corpo e só me dei conta de onde ela estava quando a mesma virou e disse olhando-me nos olhos: “quente aqui, né?” Mergulhei no cinza do seu olhar e fiquei extasiado. Voltei ao mundo real quando senti que alguém pisava no meu pé esquerdo. Havia uma bota preta de bico e salto fino tentando perfurar meu pé. Ao olhar pra cima, seu ‘piercing’ refletiu na luz que acabou me deixando mais tonto. Eu a conhecia de algum lugar. Talvez de algum sonho. Olhou-me com ar de desprezo e soltou fumaça em minha direção. Tossi para fazer charme e ela nem se quer pediu desculpas. Aquilo me excitou.
Alguma música tocava quando eu fui surpreendido com toques fortes no meu corpo. Era um toque triplo. Olhei para a morena do ‘jeans’ rasgado e lamentei por ela não estar lá também. Contentei-me com três. Algo mais calmo estava tocando, umas batidas que lembrava cabarés de filmes faroestes. Era, no mínimo, instigante. Eu não sabia como proceder. Entre quatro pessoas não há um meio. E agora? Dançávamos abraçados e apertados, havia uma multidão de pessoas, estava escuro e som muito alto e cada vez mais distante. Nós estávamos saindo de lá sem nos dar conta. De repente, só se vêem quatro cigarros acesos, todos na altura da boca. O escuro pairava ali e um ar sexy passou naquele lugar, naquele instante. Havia muito fogo, escorpianos, luz vermelha, conflitos, desejos... as quatro luzes dos cigarros continuavam acesas , só que agora, nenhuma na altura da boca. Por alguns instantes, as bocas estavam todas ocupadas.

Bil Lawrence
– às 06h05 de uma manhã que antecedeu outro dia.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Hoje sem querer eu tomei um gole de mim. Saciei a sede que por vezes havia me tirado o sono, corrompido meus pensamentos e interferido meus sonhos.

Provi. Senti. Criei expectativas. Tomei.

Sem me olhar no espelho eu fui com tudo o que tinha, com as duas notas que estava no meu bolso e um de meus celulares descarregado. Pena não dizer o mesmo da minha cabeça, lástima não dizer o mesmo de minh'alma.

Eu não sou o mesmo.

Hoje, arriscando, tentando, frustrando-me.

Eu errei a direção, rompi as barreiras do correto, enviei meu anonimato pelo correio para um endereço desconhecido.

De repente, assim, do nada... surge um copo cheio, transbordando.

Afeto, ódio, amor, desgraça, gana, grana, a falta, a sobra, moda, drogas, contas, dinheiro, dívidas, amores, dores, paixões, beijos, homens, mulheres, solidão, mundo, paz, música, confusão...

De repente, assim, do nada... surge um liquidificador, agitado.

Carinho, atenção, despertar, dormir, preguiça, coragem, monotonia, medo, ironia, orgulho, compaixão, desejo, superação, sexo, amor, falta de amor, mais confusão, mais confusão, mais confusão...

De repente um copo, cheio, pronto para ser saciado.

Hoje eu tomei um gole de mim e conclui.

Eu não sou o mesmo.

Sou amargo.


 

Rubian Calixto
– às 20h52 de uma quarta-feira bem imprevisível, com direito a tatuagem e pizza de chocolate.

domingo, 4 de outubro de 2009

experimenta, experiência!

Acredito no individualismo, na capacidade de cada um, acredito inclusive, no inacreditável. Hoje revejo fotos, relembro fatos e me enclausuro numa dissipação despercebida que perpassa minha mente de modo que eu não enxergue toda essa confusão inventada. Noto que valores, costumes e crenças já não seguem tanto à risca o seu roteiro. Tudo é muito novo, ou tudo ainda não ficou muito velho. Percebo que o tempo realmente tem o poder de nos fazer prisioneiros, assim como libertos daqueles que se arriscam numa nova experiência ou até mesmo repetir outra que, outrora fora frustrada. É assim que a vida funciona, de recomeços, batalhas e vitórias. Nada é tão fácil que venha assim,de 'mão beijada' sem ao menos um 'obrigado'. Mediante tudo isso, algumas pessoas usam seus erros em favor dos outros, só que, deste modo, o intuito é outro. Não é um novo acerto e sim um próximo erro. E assim vai levando. Coloca-se numa posição 'coitadinho que já viveu de tudo' e segue a risca seu plano, ou melhor, seu jogo. Usa das mais absurdas façanhas, de medos do passado, traumas posteriores e até mesmo sofrimento antecipado. Tenho pra mim que ser inconstante não se trata de um defeito, o fato de ser leviano e querer tudo ou nada simultaneamente não é tão paradoxal assim. Ou é.

Assim como acredito em tudo, descarto todas as coisas que me levam ao nada. Desfaço-me de planos, de imagens e mergulho sem pudor. Arriscar-se é realmente surpreendente e gera experiências, daí, são com elas que nos transformamos em pessoas melhores. Ou não.

Ser experiente não está em ir para cama com tudo que tenha vida, viajar o mundo inteiro, cantar num palco de bordel ou correr pelado por um lugar desconhecido. Isso é no mínimo previsível e até clichê. Experiência é a bagagem que você carrega em si e também aquela que você sai disseminando para todos que passam por você, pela sua vida, pelo seu cotidiano, que sentam ao seu lado dentro do transporte coletivo, que te dão 'bom dia' na fila do banco ou qualquer outra atitude que gere gentileza. Como por exemplo, duas madrugadas consecutivas de conversas, risadas e uma troca de experiências – essas, nem tão incomum assim - com uma pessoa que até então só se ouvia especulações. Ser experiente é exatamente isso, é liberar, divulgar e transcender a pontos desconhecidos.

Poderia numerar as pessoas que conheço que já passaram por muita dificuldade, tiveram que usar seu próprio corpo para se auto-promover,fugir de problemas achando ser a melhor solução, terminar relacionamentos, 'entrar numa fria' e/ou até mesmo brigar pelo que acha correto, mesmo sabendo que não está. É nessa hora que devemos ser flexíveis e sentir que tudo nessa vida vai passar, cedo ou tarde, isso não importa, vai passar. E lá na frente, tudo o que vai te restar é um saco de memórias, nele estará contida toda uma história, uma vida, marcas, um passado, amores e dores. Ouse ser experiente, não ache simplesmente que é. Sinta. Ou então, permita-se. E esteja pronto para um recomeço, afinal, não deixa de ser uma experiência.

Perceba que todos os dias haverá um novo motivo pra sorrir ou chorar, você ficará feliz, haverá momentos nostálgicos, enfim, será assim até o último dia de sua vida. Um acúmulo

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Rubian Calixtoàs 6h54 de um domingo que trouxe consigo muita coisa boa. Inclusive, sono e minha carteira de habilitação que estava perdida há quase uma semana. o/

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa: -Ah,terminei o namoro… -Nossa, estavam juntos há tanto tempo….. -Cinco anos…que pena…acabou…. -é…não deu certo…' Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro? E não temos essa coisa completa. Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível. Tudo junto, não vamos encontrar. Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele. Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia. E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona… Acho que o beijo é importante…e se o beijo bate…se joga…se não bate…mais um Martini, por favor…e vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer. Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar…. ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão? O legal é alguém que está com você, só por você. E vice versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração….. Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo. E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse…. A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. E nem todo sexo bom é para descartar… Ou se apaixonar… Ou se culpar… Enfim…quem disse que ser adulto é fácil ?

Arnaldo Jabor


Rubian Calixtoàs 15.58 de uma quinta-feira de prova, loucura, medo e ansiedade. Tô de saída.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

— E você, por que desvia o olhar?


Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos, certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantado num desses abismos, dentro dos seus olhos.

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Rubian Calixtoàs 16h51 saindo para pedalar.

domingo, 20 de setembro de 2009

Entrou em minha vida, quase que com um 'inhaên' espontâneo que já tentei por vezes fazer igual. Rápido, ágil e intenso. Me fez convites, esquentou meus pés e ouviu meu desespero sussurrar em uma noite fria – na verdade, foi mútuo – meus pés e ouvidos também estavam atentos. A conversa era em sussurros, assim, ninguém mais ouviria, precisávamos de convicção que nada sairia dali. Foram feitas entregas. A noite durou uma eternidade que passou em fração de segundos. Logo em seguida, percebemos que o tempo era nosso inimigo. E mais, ele gostava de nos massacrar. Sempre deixando algo vago, pois, ali era necessário um "boa noite,preciso dormir". Assim foi por duas vezes consecutivas.

Com o passar do tempo – esse, cada vez mais rápido – pude notar o que estava acontecendo. Só reparei. Contive-me em achar algo ou simplesmente tentar mudar. Estava legal e me fazendo bem. O medo escorria pelas minhas mãos, assim como um pensamento de exclusão extraído de antepassados. Tudo bobagem, tudo novidade. Sempre me julguei e por consequência julguei outras pessoas. Desta vez eu queria fazer diferente. Fiz. Me envolvi. Paciência me foi prometida, em dias, me foi arrancada. Entrei em desespero.

Abri a porta do carro antes que entrasse – é uma velha mania de gentleman a qual eu possuo – recebi um "boa noite" e respondi ríspido, irônico e magoado. O telefone havia sido desligado na minha cara, além de 'trocentas' chamadas recusadas e não atendidas. Tentei me manter benevolente, afinal, era uma sexta-feira, o melhor dia da semana e mil planos se passavam em minha cabeça. Tentei. A conversa deu voltas de montanha russa. Senti que alguém queria brincar comigo e a intenção não era apenas se divertir e sim magoar. Fui mutilado, assim, simplesmente. Era como se parte do meu corpo estivesse saindo junto das palavras que ora por mim não foram proferidas e sim, escutadas. Fui tratado como um insensível. Cruel não foi apenas ouvir, falar também. Relutei, procurei armas, lembrei-me que me desfiz delas quando resolvi ser pacífico e racional. Isso não funcionou. Tentei ao máximo levar tudo na tranquilidade, ser claro, objetivo e perspicaz. Falhei. Fui sutil, abracei suas complexidades, seu mundo, suas dúvidas. Tudo isso, do meu jeito, com cautela e (in)segurança. Eu mesclei sentimentos. Seus questionamentos? Eles também eram meus. Formamos uma dupla em perfeita sintonia, dividimos sabores, músicas, cheiro, milkshake, um lugar secreto, medo, camas e até uma pessoa. Tornamos-nos cúmplices de nossa própria razão: estar junto. Fomos loucos, alucinados pelo prazer de estar junto e compartilhar momentos. Registramos alguns. Deixamos de viver outros.

O que você fez? Foi uma pausa? Por onde andou? A quem deixou? O que procurou? Encontrou? Deu certo?

Hoje um eco vai e volta no meu pensamento, ouço um zunido e acabo sendo interrompido na hora de, de fato, pensar. Eu prefiro que permaneça assim. Quero acreditar que tudo não passou de um excesso de egocentrismo, de mágoa. Ou talvez uma simples retórica na qual o sentido fosse me convencer que estou/tava errado. Acredito no poder do tempo, acredito no sentimento, na conspiração, em Deus, em energia, assim como desacredito no destino e em tudo que me pareça vão. Eu não sei, é cedo pra pensar. Estou magoado e acho que alguém não percebeu. Paciência. Afinal, dias se passaram.

E, pelo visto, continuarão passando.Quem sabe você não me liga pra pedir desculpa e dizer que quer reparar um erro?

Quem sabe eu deveria dormir agora? Afinal, sonhar acordado é muito utópico para alguém em minha situação. Estabeleço em mim não só absurdamente otimismo, mas também um modo irreal de ver as coisas do jeito que gostaria que elas fossem. Ou o "espere que eu te espero" foi simplesmente em vão? Prefiro acreditar que não.

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Rubian Calixto1h25 de uma madrugada silenciosa e amarga.