terça-feira, 8 de junho de 2010

pôr do sol


Após quebrar o espelho do quarto percebi que o azar não se encontrava nos cacos e sim em minha mente. Fui eu quem trouxe o azar para perto. E demorou um pouco, diria. Contudo, o suficiente para usá-lo em meu favor. Por vezes caminhei na contramão que insistia em aparecer transcendendo em mim um poder de irresponsabilidade – um sabor que já estava desconhecido, até então – procurei respostas para meu questionamento. Resolvi conhecer mais o menino que carrega uma mochila nas costas e me prontifiquei de que me sobram motivos para querê-lo longe de mim, em contra partida, me falta vontade de simplesmente abandoná-lo. Na verdade, me falta o sentimento do desapego. Não havia mais nada a esconder de ninguém – ao menos das pessoas mais importantes pra mim -, porém, ainda havia muito por fazer. Então, mãos à obra.

Entre queijos importados, filmes, vinhos, um jaleco branco e uma ousadia escondida por um muro social, eu me encontrei. Ou me perdi. Aliás, me permiti. Foi fuga, vingança, desejo contido. Não se sabe. Só se sabe que foi feito. E tem sido feito. E tem feito bem. É quem sabe o acaso veio mesmo juntar os desencontros? Ascendi à luz da felicidade como quem liga o pisca alerta anunciando que vai entrar.

Era um dia sem muitas regras. Um dia daqueles: ensolarado e vivo. Parecia ser o último dia de um filme, aliás, a manhã seguinte onde o tempo para afim de que os personagens possam se reconstruir e ser feliz antes do fim. Regata, boné, água de coco, samba e uma viagem. Descobriu o que gosto da culinária e me levou para comer o melhor camarão do Estado. Senti felicidade naquilo, como alguém que outrora passara remédio em uma ferida, pois, sabia que àqueles cuidados trariam a cura, a cicatrização e o esquecimento. Fazia um tempo que eu não sentia isso. Adormeci no banco do passageiro e acordei em outro lugar. Não reconheci. Na verdade, não me reconheci. Lembrei do quanto eu gosto de estar distante. Do quanto eu me desprendo de tudo que julgo correto estando à milhas de onde eu vivo. Enveredei pela cidade. Andei de mãos dadas na praia e sorri para um pássaro que emitiu um som como resposta. Pensei em emoções e acabei parando em envolvimentos. Lembrei que somente eu posso definir meu grau de envolvimento. Lembrei do Pequeno Príncipe. Dos segredos que ele guarda e de seus vícios. Um dos que mais me atrai é o fato de ver o pôr do sol. No livro ele confessa o quanto gosta de vê-lo. Ainda haveria uma hora até o sol se pôr. E fui. Fui a um lugar incrível no qual já sabia onde ficava e todos que estiveram lá enfatizaram do quanto é lindo. E foi. Ver o pôr do sol acompanhado, tomando sorvete de amora e me perdendo num sorriso.
Na volta pra casa, enquanto o sol deitava em suas brumas, vi o céu tornar-se baunilha.

Olhei pro lado e tive dúvida em quem estava comigo. Olhei outra vez e me deparei com o branco do seu sorriso. Aquele branco do jaleco, da nuvem que perdeu o cinza, o branco que me trouxe paz.

Parados no acostamento da estrada, as estrelas brilhavam forte na escuridão da noite que anunciava o fim do dia. Respirei fundo, balancei e vi que é isso o que importa: ser feliz. Quem tem um sonho não dança, conclui.




Rubian Calixtoàs 11h38 de hoje, lembrando que depois que todos se afastam, a verdade vem e brilha como o sol acordando.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

antes do sol se pôr.

Houve um dia em que ele desistiu. O azul estrelar do seu céu de amores deu lugar a uma nuvem cinza de ilusões. Lembro-me perfeitamente daquela noite cinza de maio que trouxe consigo uma chuva que lavou não apenas seus olhos, mas também sua alma. Cantou sozinho no trânsito fazendo seu itinerário de volta para casa. A música falava em desaparecer, eu acho. Aliás, tenho certeza. Seu pensamento era inconstante, o fez inevitavelmente voltar o tempo como alguém que aperta o ‘slow’ e observa atentamente cada fragmento de uma história. E, como um livro ele voltou às páginas. Sorriu. Contudo, lágrimas estiveram mais presentes. Como a vida é intrusa, lembrou. E esqueceu de quem foi. Parado no vermelho do semáforo, perguntou a um estranho se ele conseguia enxergar a tristeza do seu olhar. O estranho não era confiável, imaginou. E preferiu ficar sem a resposta. Acelerou. Passou a duvidar, desacreditar, desconfiar e mais que isso, a desistir. Desistiu de entender, adivinhar e buscar. Lembrou que a busca gera expectativas e expectativas geram decepções. E ele não precisava de mais uma. Seu histórico comprova a situação. Como fatos comprovam o crime num tribunal. Réu, culpado, testemunha. Não havia. Foi tudo suposição. Invenção. Jogo. Era um jogo e ele demorou a entender isso. Na verdade, ele percebeu quando chegava em casa e foi antes de descer que disse a si mesmo que a partir de agora ele só quer uma coisa: tentar ser a pessoa que esqueceu.



Rubian Calixtoàs 10h14 de uma linda manhã de sexta feira onde eu queria que fosse composta por 50h.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

querido diário,


Começaria minha narrativa, enfatizando a data em que eu estive triste e resolvi visitar um abrigo de idosos. Minhas idas lá eram constantes, afinal, participar de um projeto social exige isso. Há mais ou menos um ano tive meu primeiro contanto com idosos, nesse lugar conheci uma senhora simpática que me falava sobre um mundo fantástico. Era como se ela fosse a Alice que estivera num país das maravilhas, contudo, ao contrário da Alice de Lewis Carroll, ela viveu num mundo maravilhoso mesmo, sem confusões. Não buscou em momento algum interferir nos planos dos outros ou tentou salvar a humanidade. Ela foi humana naturalmente, vivendo os dias e tirando deles o melhor proveito – e, sem dúvida, as melhores lições – sem ao menos perceber.
Dona Dulcineia, era intuitivamente comunicativa, sabia se expressar e falava pelos cotovelos. Cativante ao extremo conseguia atrair a atenção dos que se encontravam adjacente. Possuía um poder avassalador de conduzir uma conversa e até mesmo uma dança. Lembro-me da vez em que dançamos. E, me surpreendi como alguém com aquela idade ainda conseguia tal façanha. Enquanto dançávamos o sorriso estava no rosto e a distância entre os corpos era restritamente aplicada, afinal, a elegância e soberania imperavam sobre si. E, sobre mim também. Ela era uma dama. Falou-me de suas aventuras quando mais jovem e eu me permiti embarcar nas ondas de seu passado. Falou de corte, de aristocracia, de baile de máscaras e de cartas que escreveu para um cadete da aeronáutica. Contou-me também sobre um dentista que ia até sua casa fazer as consultas da família e do caso de amor que vivenciou com o mesmo. Gostava de jóias, de vestidos e livros. Colecionou sapatos quando mais jovem e os vendeu a fim de conseguir dinheiro para uma viagem para fora do país. Algumas vezes me deixei levar por suas conversas e passei a ser antagonista, participando eventualmente de algumas. Vez ou outra me chama de Inácio, segura firme minha mão e pedia para eu não sair dali, pois, alguém se aproximava e ela me queria para fazer ciúmes, somente. Outra vez me perguntou sobre as malas. Como alguém que pergunta de que horas você embarca. E também o motivo de eu tê-la deixado sozinha na noite passada. Dona Dulcineia me inseria de personagem para suas estórias ou então me usava como mais um. E isso nunca me importou, pois, estar com ela era o suficiente. Devido a alguns problemas pessoais acabei me afastando do projeto e conseqüentemente do abrigo. Meu egoísmo falou mais alto e eu infelizmente não a procurei mais. Entretanto, jamais esquecera àquela senhora incrível. Até que um sábado triste me trouxe a vontade de estar com alguém e isso infelizmente não foi possível.
Então, foi ai que resolvi voltar ao abrigo e em minha mente só alguém poderia tirar de mim a tristeza que assolava meu peito. Estacionei, entrei, procurei, não a encontrei e, nervoso, perguntei. A resposta que obtive foi a de que ela estava na enfermaria. (Por vezes já pensei em escrever algo sobre a sensação de estar na enfermaria deste lugar e mais uma vez, deixarei isso para outro post.) Chegando lá procurei maca por maca e meu peito doía a cada olhar. Uma respiração diferenciada me chamou atenção e meu olhar foi de encontro a onde D. Dulcineia se encontrava. Meus olhos automaticamente encharcaram-se de lágrimas e eu me aproximei. Segurei firme sua mão e disse: “D. Dulcineia, sou eu.” O silêncio se encarregou em me responder. Seu estado me deixou transtornado, todavia, insisti. Ainda com a mão dela entre a minha eu disse: “Se a senhora lembrar de mim, por favor, aperte minha mão.” D. Dulcineia apertou bem os olhos como quem enxerga a solidão.

Rubian Calixto – às 17h35 após lembrar que isso foi exatamente dia 1º de maio.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A menina que plantava girassóis.




Embora soubesse que a planta era originária da América Central, Laila insistia em cultivá-las. Agregado ao seu gosto por história, acabou descobrindo que alguns objetos incas faziam referencia aos girassóis, havia também um amor por trás de tudo aquilo. A ligação que Laila buscava com o mundo transcendental é também uma característica notória, pois, aos treze anos, ela passou a acreditar que para se ter sorte, era necessário ter onze girassóis plantados no quintal de sua casa. Órfã de pai e mãe, Laila foi a única sobrevivente do acidente que causou a morte de seus pais e de seu irmão. Ela ainda lembra do dia e guarda alguns traumas consigo. Devido à perda, precisou morar com sua única tia, na Espanha, por volta dos anos 60 abandonando a Hungria e toda uma vida já constituída. A Hungria sempre foi o lugar onde Laila pretendia terminar tudo o que começou. Constituir uma família, continuar o contato com seus amigos, e ministrar aulas de História na Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste. Entretanto, o destino muda seu curso, às vezes. Laila era – aparentemente - uma pessoa agitada e efusiva, contudo, guardava um silêncio dentro de si. Todas as noites contava estrelas, escolhia as que mais brilhava e só parava quando encontrasse onze. Ou, adormecia antes de terminar a contagem. Era romântica, jamais cética. Aliás, ela deixou de ser após conhecer Amilton.
Assim que se mudou da Hungria para a Espanha, Laila matou quem ela era, junto disso, todos os que passaram em sua vida. As lembranças ficaram e a vontade de matá-las também. E assim travou a batalha. A pancada do novo chegou à vida de Laila como uma tempestade inesperada numa manhã radiante de novembro. E ela acatou isso, pois, estava extremamente vulnerável e fragilizada.
Amilton e Laila se conheceram em um dia nublado, o preto predominava em suas vestes e o céu não possuía estrelas. Foi na fila do teatro. Ambos estavam ali sem saber na verdade o que procuravam. Era uma transfiguração de um filme que foi transformado em musical. Pelo estado de espírito dela, uma comédia ou ‘stand up’ seria bem mais cômodo, digamos. Entraram juntos, sentaram juntos e, após o espetáculo, discutiram juntos regados a café em um pub que escondia estrelas em seu teto. Era incrível como a hora havia se passado e eles perderam tudo em meio à conversa. Laila não acreditara que sua vida estava entregue a um cara que nunca tinha visto e Amilton jamais imaginou apostar naquela noite em que seu relacionamento havia acabado. E apostou. Apostou consigo que Laila seria a cura para sua dor, pois a mesma causou uma sensação jamais sentida por ele. Daquele dia em diante, tudo mudou sem nada sair do lugar. Eles viraram protagonistas de uma história não contada, mas sim, narrada. Narrada pelo sentimento mais nobre que um poderia sentir pelo outro. Era amor e eles reconheciam isso. A intimidade que possuíam era incrivelmente absurda. E isso só aumentava o desejo de estar juntos. Laila conhecia todos os gostos de Amilton e isso era mútuo. Seu fascínio por pipas, pela cor, por números, literatura, arte, cinema, gastronomia. Tudo isso era compartilhado comumente e como dois estranhos eles se conheciam a cada dia. Porém, um chamado muda tudo. Amilton foi convocado para ir à guerra e isso era o suficiente para o amor esmorecer. E assim foi. A partida de Amilton deixou em Laila uma lacuna que ela tentava preencher diariamente, tentando definir saudade e matando suas lembranças. Isso era frustrante. Contudo, se fazia necessário.A única coisa que Amilton levou consigo fora um saquinho contendo algumas sementes, essas, as que Laila pretendia plantar no quintal de sua casa assim que casassem, esse era um dos planos que compartilhavam. Laila sabia que o amor não iria mudar, entretanto, ela precisava se reconstruir acima de tudo e buscou fatores que a norteasse. O lócus de controle de Laila tornou-se uma coisa extremamente externa. Sua tia passou a intervir em suas escolhas e a fez acreditar que sair da Espanha seria a forma mais fácil de esquecer tudo aquilo. Ela achou não ter escolha, pois, um buraco abriu naquele instante e todas as circunstâncias levava à crer que eles nunca mais se encontrariam. E assim foi. Laila vai para a Suíça e passa a ministrar aulas na Universidade de Genebra onde conhece um professor de Ciências Políticas e casa-se com ele.
Laila passa a viver uma vida pacata e infeliz, contudo, ela cultiva os onze girassóis que existe em seu quintal. Ela tenta não acreditar em sua verdade e sim nos fatos, nos pensamentos, na sorte e no sonho que a atormenta diariamente. Onde ela vê um campo coberto por girassóis, pipas no ar e um banquinho, tão distante que a impede de saber se existe ou não alguém lá.



Rubian Calixtoàs 11h49, de uma sexta feira, saindo para o almoço.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

uma parte que parte.




Querido Príncipe,

Se não me falha a memória, este dia eu amanheci com você. Esta página é de minha agenda antiga e nele eu costumava escrever coisas que minha memória seletiva pudesse esquecer. Como podes ver, não havia nada escrito, pois, eu não precisaria por um lembrete para esta data. Lembro-me perfeitamente a noite que antecedeu este dia. No meu absoluto silêncio, vivi toda uma história de amor que me propiciou a uma decepção que me corrompia por dentro e me levou a brincar com a noite. Naquele momento confuso, me desesperei. Encontramos-nos. Éramos eu, você e nosso amigo. Cada um com sua dor, chorando pelas ruas caladas da madrugada que parecia não ter fim. Contudo, nós ousamos e dançamos a NOSSA música, aquela que altera nossos sentidos e nos faz sentir sensações inexplicáveis, tais como, liberdade. Liberdade de ser amigo, de estar junto, de se fazer presente e simplesmente manter o corpo no mais puro balanço sem se quer abrir espaço para outras coisas. Entramos numa boate com um só intuito: esquecer o que nos levara até lá. E funcionou. Naquela madrugada passamos a conhecer nossos próprios segredos e mais ainda, dinamizá-los. Foi incrível sintonizar o rádio enquanto o sol nascia na nossa frente. E, nos perdemos nas conversas, viagens e fotografias que tiramos. Duvidamos até de encontrar um céu mais bonito que aquele – eu lembro. Fizemos apostas e perdemos ali mesmo. Perdemos também o poder de ressuscitar aquilo que já não nos fazia tão bem. Nosso trio estava focado em uma só coisa: esquecer. Fizemos um do outro aparato e passamos a contestar a verdadeira felicidade. A gente riu, tirou foto, acendeu um cigarro, e, sorrindo nós voltamos ao carro e percebemos que a luz que irradiava o sol estava agora em nosso sorriso, pois, foi nele que sustentamos a dor.
Possivelmente, eu, agora, esteja vivenciando tudo novamente, a mesma situação, o mesmo ato, a mesma cena, com os mesmos personagens, só que, infelizmente, com atores diferentes. O que me tira o sono é saber que quando eu olhar para a platéia você não estará lá, atenta e perdida na sua desordem com um sorriso na boca me pedindo R$ 1,00 pra voltar pra casa e me garantindo que tudo isso vai passar, enfim. E eu te desejo sorte e oportunidade. E mais do que tudo isso, te desejo sorrisos! Daqueles bem largos que te faça enrijecer o rosto e segurar o estômago com a mão.

E, eu te digo: “fica feliz que vai funcionar!”

Rubian Calixto - com um beijo, um nariz de palhaço e um coração.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O velhinho do banco.


Era evidente a curiosidade, pois nada se sabe sobre a história do velhinho que todos os dias ao entardecer sentava naquele banco. Sempre vestindo roupas leves, carregava consigo um espelho de bolso, um sorriso no rosto marcado por linhas da vida e um saquinho de sementes. Usava também fones de ouvido, contudo, jamais descobriram o que se ouvia ali – se é que ouvia. Era encantador observar aquele velhinho. Todos os dias, no mesmo horário, ele sentava naquele banquinho, sozinho, como se espera por alguém. Certa vez alguém se aproximou e tentou um papo. Sr. Amilton, era seu nome. Havia morado na Espanha na década de 60 e voltava à seu país de origem afim de encontrar um alguém. Ele os olhava atento enquanto a conversa fluía e acho que seu pensamento se perdia observando aquela plantação. Falou de guerra, de ambições, de derrotas... por instantes, acreditei estar conversando com um pessimista sofrido e cheio de recalques. Contudo, me mantive inerte e continuei a conversa. Era interessante ouvir sua voz – que vez ou outra falhava – pois, o cigarro já havia consumido parte de seu pulmão. Demorou muito até que eu tivesse coragem de conversar com esse senhor. Ele sempre se mostrou indiferente, calado e insólito. N’algum momento daquela conversa ele disse que sua cor preferida era amarela e o quanto ele gostava de ver o sol se pôr. Presumi que ele era sozinho. Certa vez, li que alguém muito sozinho costumava ver o pôr do sol pra sentir-se mais vivo e menos solitário. Seria essa a teoria desse senhor? Optei por não perguntar. Sr. Amilton possuía hábitos bem peculiares. As terças feiras, ele sempre estava usando a mesma camisa, por sinal, uma amarela em tons degradês, que lembrava o sol. Carregava consigo um saquinho, que, logo após sentar-se no banco ele puxava do bolso, cheirava e passava horas apalpando. Atordoava-me o mistério daquele senhor. De outras vezes que eu só o observei vi que o mesmo mexeu a boca como se acompanhasse a música, contudo, aproximei-me e não ouvi som algum. Tentei mais uma vez perguntar, porém, gaguejei e conclui apenas o raciocínio, jamais a pergunta.
Novamente, busquei explicações para alguns fatos e tentei expor isso. Logo, fui cortado. Economia, carros, mecânica... qualquer outro assunto mais viril seria cômodo naquele instante. Nunca sentimentos, nunca. Insisti em saber que tristeza assolava aquele olhar. Seria uma decepção, frustração, uma dor? Arrisquei e me surpreendi. Falou-me que quando tinha doze anos de idade empinava pipa todas as tardes. Havia uma preferência na cor da mesma, pois, ele gostava do efeito que causava vê-la perdendo-se em meio ao bosque amarelado que estava cercado, porém, próximo ao lugar onde ele sempre as empinava. Era como se as pétalas voassem junto à pipa que se mostrava feliz ao voar por cima de um lugar tão lindo e tão reluzente. Misterioso e cheio de segredos, contava cada detalhe como se estivesse revivendo aquilo, sentado naquele banquinho em frente à plantação de girassóis. Porém, seu olhar buscava algo. Foi ai que perguntei o que ele procurava. Ele me respondeu: Laila viveu ai. Por alguns instantes fiquei confuso, pois, uma lágrima brincava no labirinto de seu rosto formado por rugas. Sr. Amilton disse que viveu um grande amor. Entretanto, pouco se sabe da menina que plantava girassóis.

Rubian Calixto – numa segunda feira de trabalho, com sono e anunciando que a história não termina por ai.

quarta-feira, 7 de abril de 2010




A escuridão do meu quarto denuncia o ‘não estou pra ninguém’, assim como a música sem volume e o ovo de chocolate aberto em cima da cama. Um abraço azul e Téo (meu cão de pelúcia) estão comigo, lembrando claro, do Black que faz bôlhinhas na água que fora trocada minutos atrás. Pacata esta noite. Escondi alguns beijos e soltei-os frente ao espelho. Continuo o mesmo. E a águia que outrora voava no meu pescoço ainda olha pra mim com certo desejo. E eu não espero nada. Tento mudar algo do quarto, tirar a poeira dos livros e dos DVD’s, até chegar à caixa. Já vi muitos filmes, li livros e ouvi até histórias de pessoas que guardaram suas vidas dentro de caixas, esconderam seus segredos por lá e segmentou isso como um modo de vida. O que não se pode compartilhar a gente guarda e guarda bem guardado. Nem sempre a memória é tão boa quanto desejamos. Ás vezes ela chega a ser cruel, indevida e oportuna. Ou melhor, inoportuna. Memória não são apenas fantasmas, nem desejos contidos, nem vagas lembranças. A ideia que tenho sobre memória é outra. É a vontade de esquecer algo, de apagar aquilo e iludir-se achando que é simples. Bem simples. Ah, me desfazer agora seria o mais oportuno. Enterrar a caixa, rasgar as fotos, jorrar lágrimas dentro de cada espaço preenchido por histórias, felicidades, tristezas e alegrias, todas elas, compartilhadas e agir como se isso fosse comum. Foi assim durante um tempo, um longo período no qual eu não me arrependo nenhum pouco. Fica como lembrança, como experiência ou até mesmo como memória. E continuará a ficar, pois a caixa permanece aqui, só que agora, não apenas sendo de um passado no qual quero esquecer, mas sim, de um presente que estou vivendo inevitavelmente, como quem precisa passar por tudo e ser feliz no final. Mas e o final, quando vai ser? Fico com a lembrança vaga de que um dia eu fui muita coisa, inclusive, alguém que pré-meditava as coisas e por vezes me deixava levar pela vida. Hoje sou eu quem quero levar a vida. E, levo comigo, esse sorriso, a esperança e o amor, um amor dos mais bonitos, o amor que carrega minha cor. O amor que no momento está dentro de uma caixa e eu não se sabe até por quanto tempo estará lá. Talvez não seja a hora de erguer memórias.

Rubian Calixto - agora me dêem licença, vou tomar chá. Às 22h10 de uma quarta feira quente.